1) Palavras cruzadas. Hoje só estou cruzando palavras. Desde cedo. A casa está uma bagunça. E eu nem aí. Também, hoje não estou esperando por Vitória. Já me convenci de que ela não quer mais vir mesmo. Inda mais depois que o Ita disse que encontrou-a ontem, por acaso, na Faculdade. Trocaram algumas palavras que ela respondeu-lhe mal, sem perguntar de ninguém aqui de casa. E acabaram discutindo.
2) Festival de merda de meia tigela. Fiquei com uma raiva. Se eu soubesse que ia acabar assim nem tinha assistido. Perder todo esse tempão à toa pra acabar nesta marmelada. O melhor cantor, o melhor compositor, a melhor letra, a melhor música que foi “Sol da manhã” de e com Carlos Papel, desclassificada. Que injustiça! Isto e que é injustiça. Só porque o rapaz veio sozinho do Espírito Santo, sem torcida, tímido, igual Caetano Veloso quando veio da Bahia a primeira vez (aliás ele é um novo Caetano Veloso que surge). Não o levaram em consideração. Preferiram os porcos dos Joelhos de Porco, os Línguas de Trapo com suas porcarias e os seus trapos do que o menino poeta com a sua bela poesia. São uns porcos mesmo estes jurados. Eta mentalidade suja, suja, porca! Bem merecem o que escolheram. Só podiam dar valor ao que deram! Se merecem! E como se merecem! Tanto quanto Aoud à Wedsnair. Porco só pode se dar bem com outro porco. Os iguais se atraem.
3) Estou me deitando fula de raiva. O Ita precisava mudar as coisas de lugar? Precisava tirar as plantas, que eu arrumei, do lugar e caixa e vitrola e levar pra sala? Não era mais fácil ele namorar com a Meire no quarto dele em vez de desarrumar tudo? Que cabeça! Que mania! Só pra me deixar furiosa. E ainda deixa o vidro da porta aberta só pra empestear a casa de pernilongos. Depois sou eu quem tenho que empestear a casa de inseticida pra conseguir dormir. O pior é que pode fazer muito mal pra Lilinha. Afinal, eu arrumo a casa, as coisas, tudo, o melhor que posso, pra ver as coisas ajeitadas o melhor possível, como gosto, pra quê? Para nada? Só para perder tempo? Se é para ficar tudo de qualquer jeito então, que fique tudo de perna pro ar, que eu vou tratar é de cuidar e de me dedicar só ao meu maior interesse que é a literatura. Se é pra não valer nada o que eu faço, então eu só vou ler, escrever e estudar que eu ganho muito mais. E cuidar da Lilinha. Não é, Lilinha? Azente passa o dia intelo xó lendo, esclevendo e comendo. Não é, filhinha? Xó a Lilinha que entende a mamãe, xó a bonequinha bonita e xenvergoinha da mamãe que gosta da mamãe.
4) Que pena que a fotografia do João no jornal (da reunião de dirigentes na Bahia) não saiu inteira. Saiu só a testa, as orelhas, os cabelos, e os óculos. Tanto que eu queria revê-lo. Tanto que eu queria matar as saudades do meu filho!
5) Aqui eu tenho o meu espaço. Bem ou mal. E ninguém me toma. O espaço que eu gosto. E que tem uma história. E, por isso mesmo, um valor sentimental incalculável. Cada tijolo, cada taco, cada grão de areia, foi posto aqui com muito suor, com muita luta, com muito ideal, com muito Nam-myoho-rengue-kyo. Esta casa foi feita no tempo em que eu tinha coragem para construir uma casa. O que, agora, não tenho mais. Nem dá pra acreditar que eu consegui construir esta casa! Hoje, aquele ânimo que eu tinha está tão remoto, que até parece que só foi um sonho. Será que aquele dinamismo que eu tinha vinha de necessidade? Ou vinha da minha própria força de vontade? É uma incógnita. Nem sei que horas são. Mas já deve ser bem tarde. E eu devo ir dormir. Aliás, todos já dormem. Menos eu. E a Vitória? Será que já está dormindo também como os demais? Ou será que, como eu, também ainda está acordada? O importante é que eu soube dela. E sei que, aliás, creio que ela está bem. E que o Gohonzon a faça cada vez cada dia melhor, cada hora mais bem. Vou dormir de luz acesa. Assim, o que vier ou, se vier algo na cabeça, rabisco.
6) Só vou pegar no sono mesmo, quando eu estiver com bastante sono. Se eu pudesse eu passaria a noite inteira escrevendo. É tão gostoso escrever com este silêncio...
7) Parece que vou terminar a minha vida só. Que não vou ter mais ninguém para compartilhar da minha vida, que não vou ter mais nenhum homem morando comigo. Não sei se isso é bom se é mal. Mas creio que nem é de todo bom, nem é de todo mal. A companhia de um homem tem desvantagens. E a solidão também tem lá as suas vantagens.
Clô
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