Para Aoud Id
Vou te dizer, amor, e acho difícil que acredites
Pois, neste mundo, onde a mentira predomina,
Raro é encontrar um amor puro e sem limites
Como este que te dou, numa ansiedade tão divina.
Pois creia, amor, é bem sincero o que te digo.
Desde o instante em que te vi naquela esquina
Senti dentro de mim, confiar em ti, pensei comigo:
É o ideal que, em sonhos, alimentei desde menina.
É duro acreditar, mas tu sabes bem que não minto.
Eu mesma me estranhei ao perceber que te queria.
E se procuro, em gestos, te expressar tudo o que sinto
E, se, somente a ti, resolvi dar a primazia
De possuir-me, é porque existe, de verdade,
Algo de especial que em outras almas não senti.
Pois antes nunca dei ao coração tal liberdade
De entregar-se a alguém assim, com tal facilidade.
Eis, portanto, a razão por que gostei de ti:
Gostei de ti desde aquele seguro instante
Que, sem querer, te contemplei bem de pertinho.
Pois julguei ver, na placidez do teu semblante
Que, como eu, necessitavas de carinho.
Gostei de ti porque te achei bem diferente
Dos demais homens, cujo instinto aventureiro,
Buscam enganar a nós, mulheres, tão somente
Sem dar valor a um sentimento verdadeiro.
Gostei de ti por ver, no teu olhar sereno,
Essa ternura que me deu nova esperança.
Gostei de ti por ver, no teu rosto moreno,
O personagem dos meus sonhos de criança.
Gostei de ti ao perceber que a timidez
Te acompanhou quando vieste ter comigo.
Pois gaguejaste e, eu bem notei na tua tez,
Aquele ar de quem não sabe ser fingido.
Gostei de ti desde que deste, aos meus ouvidos,
O sibilar da tua voz tão mansa e calma.
Que eras sincero, percebeu-te os meus sentidos,
E que eras bom, compreendeu-te a minha alma.
Gostei de ti, do teu perfil de beduíno,
Onde admiro os olhos teus negros, brilhantes.
Gostei do teu jeito de ser bem masculino,
Da envergadura audaz, assaz soberba e elegante.
Gostei de ti e isto me enche de vaidade
Pois, tudo em ti, só me deslumbra e me fascina:
Teu corpo forte, o teu sorriso, a tua idade,
Os teus cabelos salpicados de platina.
Gostei de ti porque és um homem de verdade
Porque me sinto, junto a ti, mais protegida
Da multidão de toda espécie de maldade
Que, a todo instante, vem roubar a minha vida.
Gostei de ti pelo teu rasgo de heroísmo
De desarmar-me, com tamanha perfeição,
Sem ter usado da mentira ou do cinismo.
Eis, como prêmio, o que te dou – meu coração.
Clotilde Sampaio
Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)
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