1) Exercitar a mão e a mente. Desbloquear a mente e a mão. Torná-las unas, no exercício de escrever com fidelidade tudo o que sinto, o que penso, o que vejo, eis o porquê de eu estar praticando nesta imensa folha de papel que o Ita sempre traz da “Papelão”, onde ele trabalha. E não (ou no fim, pode até ser) com o intuito de fazer do que aqui está escrito alguma obra literária. Oh! Não. Ao menos por enquanto, não. Futuramente, quem sabe? O meu desejo, o meu ideal, é poder publicar os meus livros de poesia. Pois sei que sou essencialmente poeta.
2) Não tenho a menor vontade de vender esta casa. Aqui lutei tanto! Aqui passei por tantos momentos difíceis, gostosos, bons e meus. Por tantas emoções! Os meus filhos ainda todos pequenos! E nós todos juntos. Que saudades daqueles tempos em que ainda estávamos todos juntos. Esta casa tem uma parte da nossa vida impregnada aqui dentro, lá fora, por todos os cantos. Ela representa a nossa luta pelo nosso meu ideal concretizado. Quero ir pra Bahia, sim. Mas o ideal seria sem vender esta casa. O lugar, o bairro, a cidade, para mim, nada disso tem muita ou nenhuma importância. Mas esta casa tem. Se eu pudesse levá-la assim como está para a Bahia! Com todo este espaço que tem aqui dentro! Sei que dificilmente terei outro espaço como este em qualquer outra casa. E não é só o espaço não. É o sentimento. Por outro lado, também penso como seria bom eu me desligar de tudo que está aqui. Ou melhor, ao redor daqui, e que só me fazem ainda sofrer. Não há mais nada comigo que me lembre Aoud a não ser os meus filhos que são a personificação dele. E que são só meus. De resto, seria ideal que eu acabasse com tudo dele, e que o enterrasse de vez. Mas quando isso? Será que conseguirei de todo, um dia? Sinto que isto já está bem encaminhado. Que ele já não me faz mais a falta que fazia, e que se ele de repente morrer, não vou sentir. Mas será isto mesmo? Ultimamente tenho estado tão instável, tão contraditória, tão incoerente comigo mesma.
3) Tenho tanta coisa pra fazer hoje! E vou ver se consigo fazer todas. Hoje já é quinta-feira e é só hoje e amanhã que tenho para dar um jeito melhor nesta casa, deixar mais em ordem naquilo que me for possível. Quem sabe Vitória vem neste fim de semana? E quero que ela venha e encontre a casa bem confortável e bonita. Preciso enviar a carta que escrevi para o capitão Expedito. Se já a tivesse mandado, talvez já tivesse um bom resultado. Como não mandei, estou ainda naquela expectativa do nada. E eu já não tenho mais tempo pra perder, nem pra esperar. A minha vida já está passando e, se eu não aproveitar agora não aproveitarei mais. E ele é um homem que eu não devo deixar perder. Pelo menos enquanto ainda eu estiver por aqui, devo dar um jeito de poder aproveitá-lo ao máximo. Caso contrário, será mais uma das coisas que futuramente poderei vir a me arrepender não ter aproveitado e de não ter feito nada para que isso tenha acontecido.
4) AIDS. Que horror! Fizeram tanto uso do focinho de porco como tomada que só, e nos estreparam. Doença venérea mortal que só os homens poderiam inventar. E agora, é todo mundo no rolo. Inocentes pegando pelos que perecem. Mais uma prova da inferioridade do homem. E viva nós mulheres que estamos provando o quanto somos superiores a eles em tudo. O que eles têm é dor de cotovelo, por isso nos achincalham, nos diminuem, nos humilham, nos agridem. Mas, quanto mais fazem isso, só conseguem provar mais as suas baixezas, covardias e inferioridade. Homens, existem ainda sim. Raríssimos. Mas ainda os há. Meus dois filhos, por exemplo, que em todos os sentidos tanto na honestidade quanto no modo de agir, de pensar e de respeitar as mulheres, são homens com H maiúsculo. Assim eu os ensinei. E assim, eles são. Graças a Deus.
5) Vai, Aoud! Fique com todo o seu dinheiro. Você sempre precisou, precisa e vai precisar bem mais dele do que nós. Você só vale pelos cifrões que você tem mesmo. Enquanto você os tiver, você ainda valerá alguma coisa. Mas se, de repente, você precisar ficar sem ele, você ficará também uma pessoa sem valor nenhum. Não vai valer nem a bala com que você usará na sua cabeça como único remédio talvez, mas não eficaz para a sua enorme dor de consciência.
6) É mais mesmo por uma questão de honra. Pois sei lá se até lá, ou seja, até você morrer, se você vai morrer tendo alguma coisa? Talvez você termine a vida bem mais pobre (monetariamente porque espiritualmente você sempre foi paupérrimo, miserável, indigente, um coitado) do que nós. E, além do mais, o teu dinheiro nunca nos fez falta. Sempre soubemos viver sem ele. (Apesar de também termos direito nele). Quem não sabe viver sem ele é você. Você é escravo dele, se humilha, se suja, se rebaixa, se prejudica, se joga no fogo do inferno, dá a alma ao diabo e mira o diabo por causa dele. Coitado! Escravo de um papel! Que pobreza!
7) Lilinha ronca. Está tão linda! Hoje sorriu o dia inteiro. E olhou tanto para mim! Um olhar tão lindo! Um sorriso tão lindo! Um rostinho tão lindo! Que nenhuma outra criança tem. Cada dia que passa ela fica mais linda! E eu não consigo mais viver sem ela. Ela, com todas as artes que faz, é a companhia ideal para mim. Lilinha é a minha vida. Ela preencheu todos os vazios que os meus filhos, ao crescerem, deixaram dentro de mim.
8) Uma vontade de ir à Bahia! Rever joão, Ari, Lorena! Claudete, Clarindo, Jehová! Betina! Rever a Bahia e matar saudades de todos e de tudo. Quero ir no fim do ano com Dinorá e com a Lilinha. Vamos passear bastante. Rever e mostrar muita coisa pra Dinorá. Sei que ela vai ficar encantada com tudo que vai ver lá. Cantina da Lua! Mercado Modelo! Igreja de São Francisco! Largo do Pelourinho! Praia da Barra! Bonfim! Ribeira! Se pudermos ir para a Festa do Bonfim! Que glória! Será inesquecível. Passar este fim de ano lá. Com todas as pessoas amadas e queridas. Transbordando de felicidade naquele paraíso encantado que é a Bahia. E se tiver a sorte de conhecer Jorge Amado? E Zélia Gattai? Rever Jehová! Aplaudir Jehová! Ah! Jehová, Jehová! O que é que o baiano tem? Tem raça como ninguém.
9) E... Antoninho Mattos? Ah! Você foi o baiano, o mulato, o homem mais lindo que eu via até hoje, em toda a minha vida. Outro DEUS! Que eu deixei perder. Que pena! Mas terão outras vezes. E da próxima você não me escapa. Ou melhor, vou fazer questão de não me deixar te escapar. Agora eu vou dormir.
Clô
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