terça-feira, 2 de maio de 2023

PEDAÇO DE ABANDONO

              Para Aoud Id


Estou tão absorvida no meu silêncio...

Tão compenetrada na insensibilidade...

Que chego a imaginar que não existo.

 

Sinto-me distante da vida que me rodeia.

Pareço-me o fantasma da morte em pessoa;

Sim, porque nada há que me arranque

Da mudez com que me envolvo.

 

A minha voz não tem ânimo para dizer nada.

Os meus lábios estão falidos,

Não se abrem para exprimir o que sinto,

E os meus olhos, indefesos para a contemplação,

Dos esplendores da sobrevivência.

 

Estou fora de mim.

Estou fora da vida.

Estou fora de tudo.

 

Não posso pressentir

Mais o que sou externamente.

Mas devo ser um pedaço de abandono

No invólucro da desolação em massa. 

 

              Clotilde Sampaio

 

   Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)

 

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