Para Aoud Id
Estou tão absorvida no meu silêncio...
Tão compenetrada na insensibilidade...
Que chego a imaginar que não existo.
Sinto-me distante da vida que me rodeia.
Pareço-me o fantasma da morte em pessoa;
Sim, porque nada há que me arranque
Da mudez com que me envolvo.
A minha voz não tem ânimo para dizer nada.
Os meus lábios estão falidos,
Não se abrem para exprimir o que sinto,
E os meus olhos, indefesos para a contemplação,
Dos esplendores da sobrevivência.
Estou fora de mim.
Estou fora da vida.
Estou fora de tudo.
Não posso pressentir
Mais o que sou externamente.
Mas devo ser um pedaço de abandono
No invólucro da desolação em massa.
Clotilde Sampaio
Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)
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