quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Poá, 28 de março de 1983. (segunda-feira, 13:40 horas)

      Uma vergonha. Levantei-me já passavam das onze horas da manhã. Constatei pelo relógio que ultimamente anda preguiçoso, sonolento, doente, tal qual a dona, só trabalhando quando empurrado. Mas sim, pela televisão, a qual ligada  logo após ao meu despertar e no canal cinco como de costume, videonizava desenhos. Será? Sim, desenhos e do Pernalonga. Então já é o “Balão Mágico”! Puxa vida! E eu que já perdi a minha novela preferida. Puxa! Eu não podia ter acordado tão tarde! E justo agora que a “Ciranda de Pedra” está no auge das emoções! Agora que a Virgínia tomou ciência de todas as verdades que se escondiam por trás dos mistérios que envolviam sua vida, e que resolveu se impor, e que está botando pra quebrar. Pena, eu não saber o que aconteceu hoje. Normalmente, eu não sou muito dada a novelas, só assistindo um ou outro capítulo de uma ou outra, por assistir. Principalmente estas novelas atuais que têm sido tão vazias e tão artificiais. Mas a “Ciranda”, esta me interesso porque retrata a época da minha adolescência. Uma época em que a vida, os costumes, tudo, eram tão diferentes! Os sonhos, as esperanças, os romances, os legítimos sentimentos... Ah! Eram com estes ingredientes que a vida era feita antigamente. Havia muito mais sinceridade e poesia em tudo que se fazia.
      A sala está uma bagunça. A Jussara devia pelo menos ter levado o seu colchão de volta para o seu quarto antes de sair para a escola. Mas nem isso fez. Malandra, quer dormir na sala por causa da claridade da janela que a ajuda a levantar-se mais cedo e não perder a hora da escola. Faz a bagunça, e não se preocupa em depois, deixar tudo em ordem. A cozinha então, nossa! A comida e os pratos do jantar de ontem, com ossos de galinha, cascas de mexirica, garrafas de coca e cerveja vazia, ainda estão sobre a mesa. O fogão e a pia, repletos de panelas vazias e sujas. Vou só dar uma ajeitada mais ou menos, e deixar o resto com a Jussara. O Ita ainda dorme. Mas, vou deixá-lo dormindo porque todos estes dias, ele tem se levantado muito cedo para ir ao Tiro (de Guerra). E ontem, ele mal chegou do Tiro e se mandou para o Poaense para jogar volley, e lá passou a tarde toda jogando. À noite foi em Mogi encontrar a namorada e só voltou bem tarde. Merece dormir até a hora que puder ou quiser hoje.
      E, já que estou na cozinha, constato que não há leite. E não o havendo não posso preparar o meu imprescindível café com leite. Mas vou ver se ainda tem pelo menos um golinho do café com leite de ontem na garrafa térmica. Por sorte tem. E ainda dá meio copo. Está frio e com cheiro de ruim. E eu que não gosto de nada frio ou ruim, tomo-o assim mesmo. Está mais que frio, quase gelado, e com gosto de quem queria azedar mas não conseguiu. Mas não faz mal. O que não mata engorda. Pior pra mim, que não quero engordar. O que não mata emagrece, seria no meu caso o dito ideal. Mas, já que não é, mesmo com esse deslize, já serviu ao menos para eu poder fumar o meu primeiro cigarro de hoje.
      Mas, antes de sentar no sofá defronte a televisão para um tanto despreocupadamente fumar, tenho que esvaziar a sala. Dobro os cobertores, a colcha, junto-os com o travesseiro e o colchão, e levo tudo de uma só vez para o quarto dela ainda em plena escuridão. Escancaro metade da persiana e do lado oeste do nosso alugado apartamento, os caminhos que vão dar ao meu amor, vêm todos de choque para os meus olhos. Luminosos, alegres, cheios de sol, entre o casario mais recente desta Poá já secular, mas ainda recente, que só se emancipou (e anteontem, foi seu 34º aniversário) há precisamente trinta e quatro anos atrás.
      - Bom dia, Poá! Bom dia, meu amor! Brado com todas as forças das minhas quintessentes emoções, para dentro de mim mesma, como se ela, através de todos os barulhos da sua secular e atual cotidiana vividescência, pudesse me ouvir e me saudar. Como se ele através de toda distância que se interpõe entre a minha vida e a dele, pudesse me escutar e se sentir muito bem e muito feliz consigo mesmo.
      Volto à sala e, antes de me sentar, vou até a janela. Já com as cortinas escancaradas de véspera. Não me contenho em espiar a praça Leonor Bonini só de através os vidros. Abro-os para melhor poder apreciar os movimentos da paisagem lá embaixo. Linda! Não me contenho e de novo tenho que saudar Poá, agora pelo lado sul do meu apartamento, em plena 26 de março.
      - Bom dia, Poá! Cidade Jóia! Discreta, tranquila, misteriosa e atraente. Cidade morena! Bonita! Naturalmente e por ela mesma, mais que bonita até. Linda, mesmo. Linda, sim. Mas sem artifícios e sem vaidades supérfluas. Sensual, distinta, simples, aconchegante. Transbordante a olhos vistos de todos os bens, qualidades e dons com que Deus a privilegiou. Vejo que me dou bem com Poá. Que gostamos das mesmas coisas, e que temos muitas afinidades. Que ela é tal como eu sou, e que a sua vida decorreu e decorre tal qual a minha vida.
      Muito movimento lá embaixo. Pessoas simples que vão e que vêm na luta do dia-a-dia. E esses roncos e apitos de carros que passam, indo em direção a Suzano e a Mogi, as rodas raspando incessantemente o asfalto, me lembram o Brás em São Paulo nos idos dias de sessenta e três a sessenta e cinco quando eu habitava o apartamento 507 do 5º andar do Edifício Leste no nº 144 da Monsenhor Andrade, esquina com a rua do Gasômetro. E para completar estas rápidas e frequentes emoções de volta ao passado, só faltam os bondes. Ah! Bondes! Serrilhando os trilhos da Penha ou da praça Clovis ao Largo São José do Belém, em todos os pontos destes seus percursos, vocês estão nas saudades de muita gente. De todos os que participaram de suas vidas, de todos os que conviveram com vocês. Os bondes abertos, bem arejados, no verão, eram os preferidos. Os camarões mais cômodos e fechados, no inverno, eram o ideal.
      A própria Praça Leonor Bonini nunca me pareceu tão requisitada. No ponto de táxi, nada mais que nove carros, parados em fila. Defronte à  padaria, as vagas todas preenchidas. E aqui defronte o prédio, igual. Mais pessoas que de costume atravessando a praça, entrando e saindo da mercearia, do açougue, da farmácia e da padaria. Para uma segunda-feira comum, é coisa de se estranhar. O turco Kassab vem vindo atravessando  a praça do lado contrário ao da sua loja. Dar toda essa volta para quê? Por mim? Perdeu seu tempo. Não acho a menor graça nesse turco. Sem vergonha como ele só. E não faz a menor questão de despistar a sua senvergonhice. Os outros da raça dele pelo menos são mais discretos. Pior que, nem beleza tem. Procuro que procuro para ver se descubro algum quê, alguma isca que o faça atraente para pelo menos um certo tipo de mulher, mas, nada. Não encontro nada. Nem se vestir com elegância, sabe. Só anda com esse boné de português, essa mesma camiseta de sempre sob essa mesma camisa de sempre, essa mesma calça. E para um turco que se preze, nem altura tem o coitado. Só é forte. Meio careca e com bigodes também de português. A cor também é bem de português. Os ralos cabelos bem lisos. Quando é que uma peste dessa se parece a um turco? Só se vê que é turco pelo sotaque. Mas, pela aparência, pelo desmazelo, e pela senvergonhice, ele é todo um português. Mas, um português dos mais desclassificados. Está mais moreno. Deve ter tomado bastante sol neste fim de semana. O Seu Antonio, corretor do prédio, também vem vindo atravessando a praça, vindo da farmácia. Deixa eu entrar para dentro e fumar o meu cigarro, antes que alguém pense que eu estou aqui na janela para dar bandeira.
      Ainda está passando o mesmo desenho na  televisão. Não sei se ainda é o do Pernalonga, mas sei que são os desenhos do “Balão Mágico”. Acendo o cigarro, dou uma tragada e... Aoud. Aoud agora é o dono de todos os meus pensamentos. Ele sempre é. Raríssimos e pequeníssimos os intervalos onde ele não comparece. Ele sem querer, e sem o saber é o dono da minha vida e de tudo em mim. Domina imperiosamente todas as células do meu ser. E como sabe tirar proveito disso! E como eu lhe sou submissa! É uma coisa que eu não quero ser. É uma coisa que eu me esforço pra não ser, que eu faço tudo pra não ser, mas sempre acabo sendo. Ele veio no sábado. Neste último sábado, dia do aniversário de Poá. Pensei que ainda era cedo e que ele viria a partir de dezesseis horas. Ainda estava tomando banho sem nenhuma pressa, quando ouvi a campainha. “Deve ser ele. Mas, já? Me parece ainda ser tão cedo! Será que sou eu quem está atrasada, ou foi ele quem veio mais cedo hoje?” Enxuguei a cabeça, enxuguei o banheiro, e o terceiro soar da campainha. Escondi as roupas sujas, e pela quarta vez a campainha tocou. Corri e fui lhe abrir a porta, envergonhada por estar sem maquiagem e com os cabelos completamente molhados e sem pentear. Ele entrou e perguntou desconfiado:
      - Tem alguém aí?
      - Só eu.
      - Mesmo?
      - Mesmo. Pode ver.
      - Quem saiu com o seu carro?
      - O Ita. Foi no clube com a Jussara jogar voley.
      - E ele sai com o seu carro? Sem carta? É perigoso.
    - De vez em quando ele sai. É perigoso mas o que é que eu posso fazer. Ele é teimoso. Estou sempre falando com ele mas ele não liga.
     - O que é que você estava fazendo?
     - Eu estava tomando banho. Acabei de sair do banheiro.
      Ele, como se não acreditasse, veio comigo até o fim do corredor, e vendo que de fato o banheiro estava molhado, voltou para a sala enquanto eu entrei no meu quarto para acabar de me aprontar. Fiz a maquiagem, penteei os cabelos, calcei a sandália lilás, e me fui para a sala. Ele estava deitado no sofá, assistindo televisão. Cheguei-me por trás, passando-lhe minhas duas mãos pelo seu rosto, acariciando-lhe suavemente, e lhe dei um beijo. Ele voltou-se para o meu lado, olhou para mim e perguntou:
      - Está com saudades?
      - Muitas. Sorri-lhe acariciando-o e beijando-o de novo. Perguntei-lhe:
      - Quer café?
      - Tem? Você já fez?
      - Já.
      - Então traz. Mas só um pouquinho. Traz na xicrinha pequena.
      Trouxe-lhe o café, tranquei a porta, e sentei-me ao seu lado. Abracei-o e ele também me abraçou. Beijei-o e ele também me beijou. E foi a vez de eu lhe perguntar:
      - Está com saudades?
     E ele não querendo dar o braço a torcer:
      - Não.
      Sorrimos. E não lhe perguntei mais nada. Para que? Ele sempre contradizendo-se a si próprio. Mas, tive vontade de responder-lhe “não faz mal, meu bem. Você não tem saudades, mas, as que eu tenho são tantas, que dá para nós dois. E ainda sobra”. Bobo. Um ser humano como outro qualquer, tão carente ou mais que qualquer outro, e fazendo todo empenho para só demonstrar o contrário. E acha que está abafando. E não consegue se tocar de que não convence. É digno de dó. Se nega a muita coisa que gostaria de fazer, podendo fazer. Mas não faz, só para sentir o prazer mórbido de desagradar os outros. No fundo, no fundo, nada mais consegue que violentar-se a si próprio. No dia que ele cair em si... Ah! Eu vou morrer de dó. Isto, porque eu o amo, e porque gostaria e vejo que tudo poderia ser tão diferente. Que, se ele quisesse, ao em vez de só pensar em ser tão egoísta, ele poderia ser tão mais feliz. Mas, se eu nada sentisse por ele, no dia em que esse dia triste chegar, eu não iria achar bem merecido como seria capaz de repetir-lhe mil vezes, dez mil vezes, cem mil vezes, infinitos milhões de vezes, de alma cheia, de peito cheio e até de boca cheia: “Bem feito! Bem feito! Bem feito! Bem feito!!! Bem feito!”...
      Passei-lhe as mãos no rosto olhando-o fixamente primeiro nos seus olhos. Olhos de menino. Carentes. Negros. Grandes. Lindos! Olhos que eu sempre gostei de olhar, de me jogar neles, de me afundar neles, e de me perder neles. Olhos que por tantos anos se distanciaram de mim, e que agora Deus me concede a graça de tê-los de novo bem dentro dos meus olhos. Agora é pelo seu rosto que eu me disperso. Rosto também de menino. Onde os seus cabelos grisalhos, os seus cinquenta e seis anos de idade, alguma rugas e a flacidez de sua pele, não conseguiriam deformar aqueles traços perfeitos, e aquele ar de ingenuidade, inocência e timidez que hoje, mesmo em confronto com o seu outro lado hipócrita, covarde, sagaz e astuto, ainda lhe ficam tão bem. Ah! Meu amor, se você pudesse ser você mesmo. Autêntico, verdadeiro, sincero, justo, tal como você aparenta ser. Mas não é. E ainda bem que não é. Porque talvez se você fosse, ou você nunca teria gostado de mim, ou eu nunca teria gostado de você. E não teria havido nunca, nenhuma aproximação entre nós. Ou, mesmo se houvesse, não teríamos dado tão certo. Nós dois formamos um terrível contraste. Você, um físico perfeito e forte, num espírito fraco e paupérrimo. Eu, um físico imperfeito e frágil, num espírito forte e de personalidade própria. E embora todos estes contrastes e confrontos, ainda conseguimos ir pela vida meio juntos. Não é de se abismar?
                                                            Clô  

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