sábado, 31 de dezembro de 2016

29 de dezembro de 1988 – quinta-feira - EDIFÍCIO THEMIS


1) Gosto dos lugares exóticos. Por isso vou morar no Pelourinho. Por isso frequento a Cantina da Lua, o Gandhy, o Araketu, os baixos do Mercado Modelo, o Mercado das Sete Portas, o Mercado Popular, por isso tenho amizade com toda essa gente bem povo, bem Bahia. Gosto do som dos berimbaus, esse som tão gostoso que está tocando aí embaixo no Terreiro à frente da Cantina. Tudo isso me faz um bem tão grande, esse som africano quente e contagiante. Gosto, amo todo esse folclore, como diz meu filho Ita. Décio não me entende. Ele é diferente. Precisa ser diferente. E não sou eu quem lhe vou fazer a cabeça, ao contrário, assim como ele jamais fará a minha. Ele é Ele. Eu sou Eu. Estou com tanta vontade de revê-lo... Por isso passei lá no 1º andar do Edifício Sul América onde funciona a Procuradoria do Município, e onde ele funciona como Procurador. Ele não estava(?) como nunca está. Nem por telefone, nem em pessoa, nem por recado. Parece-me que desapareceu por completo só para fugir de mim. Mas ainda haveremos de nos reencontrar. Mais cedo ou mais tarde. Vou vencer aqui na Bahia. Preciso vencer aqui na Bahia. Ele será o impulso que preciso para vencer aqui a qualquer custo. Ele e  os outros. Passados como Jehová e Edilson. Presente como Décio. E futuros como quem sabe? (Sr. G. ou o português amigo de Clau?). Enquanto isso, vou fazendo os meus versinhos. Enquanto cresço e apareço, vou fazendo meus versos como já fiz para Jehová, para Edilson e agora para Décio. Ainda serei muito importante nesta Bahia de Todos os Santos, minha muito querida.

2) Preciso mandar publicar o meu livro Sampahia o quanto antes. Preciso reencontrar Jehová e Edilson.

3) Pena. Cantina, Araketu, em tudo faltou você. Pena que você não sente nada das coisas que eu sinto pela tua (nossa) mais genuína Bahia. Pena que você não goste de nada do que eu gosto. Mas ainda haveremos de nos reencontrar numa muito boa. Mas quem sabe será muito tarde. O que eu estou sentindo por você, a falta que estou sentindo de você não é brincadeira. Por que tive de te conhecer? Por que tive de estar sentindo tudo isto por você? Por alguma coisa deve ter sido porque nada acontece por acaso. Tudo tem uma razão de ser. Você me decepcionou de cara. Tentei contornar, mas de nada adiantou. Você fez pior, ou seja, a emenda foi pior que o rasgão ou que o estrago. Estou aqui no Araketu mas nada adianta por mais que exista, por mais que seja. O meu pensamento sempre em você, só eu e você. Não quer se desviar para nada que até seja bem mais interessante. Mas isto é bem uma característica só minha: a fidelidade total a uma só pessoa, ou seja, a pessoa a quem me apego. Seja quem for e como for. Não pensei que você chegasse a ser tão especial. Mas é. Infelizmente é. Por isso quero vencer na Bahia para você ver o quanto se enganou a meu respeito. No fundo, no fundo, sei que você, por mais que seja, não me merece e, isto, desde o primeiro instante até o último. E eu que num certo momento até cheguei a pensar que estava enganada a seu respeito, não estava não. Como sempre me acontece, é sempre a primeira impressão que, mesmo sem que eu queira, é fatal; sempre prevalece. Estou sofrendo, samba cantado por Helinho; o Samba da Benção que é cantado em francês por um francês que está aqui no Araketu e é um rapaz bonito. Essa música foi cantada no filme “Um homem e uma mulher”, filme francês com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintingnant. Um grande samba. Helinho canta divinamente os sambas de Vinicius de Morais. E canta divinamente boleros, como será o intérprete perfeito das minhas músicas. Quem sabe? Hoje? Lá em casa? Imaginando a minha casa no Pelourinho. Já vi que Décio não me merece. Então... curtir outras coisas ruins, não vale a pena. Vale é sempre recomeçar. Já basta o que eu curti de ruim. Quem sabe Helinho supera? Fomos Helinho e eu mais uma turma de seis para o Bar do Raso da Catarina no Campo Grande onde nada mais era que O Quintal da av. Sete que eu já conhecia. Ficamos lá até 2:30 horas. Após, viemos em seis até o Largo do Pelourinho. O francês e a amiga foram para o Hotel, os outros idem e Helinho foi para casa na Saúde. Eu fiquei aqui, na casa de Clau. Foi bom. Graças a Deus que nada de anormal que poderia ter acontecido não aconteceu.

4) Vejo que o Edifício Themis ainda não é bem o que deve ser. Ainda bem que, em tempo, percebo isso:

      foto by Vitória Régia
   
     EDIFÍCIO THEMIS

                (“. . . . . . . . . . . Ah! Como é feio o mundo,

                E os homens vãos ! - . . . . . . . . . . . . . . . . “)

                                FLORBELA ESPANCA

 

       Para o Doutor Procurador da Cidade do Salvador

 

     Prostituições... Abortos... Toxicômanos... Crimes...

     Que horror!... E eu sem saber... Nada, nada, entendi...

     Das sujas pretensões com que Alguém foi pra ali...

     Bem mais podres até... Que a má fama do Themis.

 

     (Total vedar-se à LUZ... Sob tela de vime!)

     Por mim... Não vejo mais que só o Edifício em si...

     Se bi-subi-lhe ao topo, e de mal nada vi...

     Francamente!  É porque, não jogo nesse time.

 

     Não de um modo. E nem do outro, o Doutor conseguiu

     Convencer-me, ou... Vencer-me. E, por tal gabarito,

     Face à fera invencível, faz-se até... Vencedor!

 

     Quis caçar-te a cabeça. (Jívara que sou). Do cio,

     Sou levada e elevada ao mais alto infinito!...

     Temer o Themis... Eu?... Eis com quem ando: o AMOR!

 

                                      Clô Sampaio

            

                              Brotas, Salvador, 31/12/1988. -

 






2 comentários:

  1. Os escritos de Clô parecem atuais, os sentimentos femininos, são registrados como se traduzissem os nossos sentimentos. Adoro essas leituras!!! RC

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