1) Finalmente é hoje
o último dia de trabalho da Jussara no Guaió. A partir de amanhã, creio que ela
já estará de novo aqui em casa. E vai ser bom porque assim nós levaremos
Lilinha no médico para ver o ouvidinho dela. E poremos o aparelho para que ela
comece a ouvir, e aprenda a falar e a entender a gente e, a partir daí, comece
a ser uma criança normal.
2) Ou eu faço um
livro que realmente me dá prazer de fazê-lo ou nunca farei um livro.
Um livro, para mim,
tem que sair bem e todo espontâneo do autor. Teria que ser como “O meu pé de
laranja lima” de José Mauro de Vasconcelos, “Éramos seis” e “Dona Lola” de
Maria José Dupré, “Dom Casmurro” de Machado de Assis, “Dona Flor e seus dois
maridos” de Jorge Amado. Estes são livros autênticos. E não forçados como
muitos que só são feitos para se vender. Os livros acima mencionados são livros
que realmente precisavam ser feitos, ou já estavam feitos em algum lugar, e que
o autor só teve a missão e o trabalho de trazê-lo à tona para toda a
humanidade. E eu só gostaria, só teria prazer, de ter a missão de trazer à tona
um livro assim.
3) Jânio quer impedir
o acesso dos carros no centro da cidade.
4) O cometa Halley só
vai aparecer após a segunda semana de março, segundo os astrólogos (?). Está
havendo tanta publicidade em torno deste cometa, como se ele fosse a coisa mais
importante a acontecer neste século. Não sei se das outras vezes em que ele
apareceu foi assim também. É roupas, músicas, quadros, viagens, tudo em torno
do Halley. Pra mim ele não tem a mínima importância. Mas tem gente que está
pagando caríssimo uma viagem de avião promovida pelo “Gallery” só pra ver o
Halley. Cláudio Fontana fez uma musiquinha besta para ele e os filhos dele
cantarem. E já apareceu em vários programas fazendo a apresentação desta
bobagem com o jeito característico de bobo dele que, além de ser bobo, arrasta
os filhos para a mesma bobagem e pensa que todo mundo também é besta como ele.
E a gente vê os artistas plásticos pintando quadros com o Halley, as confecções
fazendo roupas com as marcas Halley, o Clovis Bornay concorrendo em vários
concursos de fantasia de Cometa Halley na qual eu não vi nada. Uma escola de
samba de São Paulo que apresentou o samba enredo sobre o Cometa Halley. Enfim o
Halley virou uma febre, virou doença, virou epidemia. É só no que se fala, e só
com que todos os velhos, jovens, crianças se preocupam. Enquanto isso, as
coisas mesmo mais necessárias são esquecidas. Engraçado é como eles, os
grandes, conseguem fazer a cabeça dos outros, dos incautos, para as coisas que
eles querem, para a conveniência deles. Eu é que não entro nessa. E, graças à
Deus, parece que meus filhos também não entram. O Halley, pra mim, não quer dizer
nada. É como uma chuva que cai, uma nuvem que aparece lá no céu. O sol e a lua
para mim têm bem mais importância do que o Halley. Para que festejar tanto uma
coisa que, pelo que vejo, nada trouxe ainda de coisa boa? Tem acontecido mais
coisas ruins do que boas. Por exemplo, o terremoto do México, a erupção do vulcão
de Armero que matou mais de vinte mil
pessoas nesta cidade lá da Colômbia. As guerras que estão cada vez mais acesas
em várias partes do mundo como no Líbano, no Afeganistão, em El Salvador, no
Chile, na África do Sul, no Haiti, nas Filipinas, na Guatemala. A seca, a fome
e morte em massa na Etiópia. A seca aqui nos estados do sul, sem se falar lá na
seca do norte que matou tanta gente aqui no Brasil. Os incêndios, os
desaparecimentos de jovens. Algumas são coisas que acontecem sempre mas que
nunca aconteceram tanto como agora com a chegada do Halley. Dá pra desconfiar.
5) “Diminui, humilha
e envergonha a própria espécie”. Palavras do Dr. José Goldemberg, analista de
comportamento, sobre o capitalismo selvagem que provocou a morte de três
meninos que roubavam frutas numa chácara ou sítio de Sumaré, estado de São
Paulo. Ele comentava o contraste existente entre a equipe de médicos que fez o
transplante de fígado numa criança no Hospital do Coração; sobre a família do
doador, outra criança que faleceu em Recife e a frieza do caseiro que, para
proteger as frutas, matou as três crianças. Uns fazem todo o esforço, se
desprendem de tudo para salvar vidas. Outros por coisinha insignificante
destroem vidas. Uns consideram a vida humana a coisa mais valiosa sobre todas
as coisas. Outras, consideram coisas fúteis, supérfluas como o dinheiro, a
posição social, a cor, a raça, superiores à vida humana. Aoud é assim, os
preconceitos, o dinheiro, a posição social para ele têm muito valor do que a
vida dos próprios filhos. Ele é dessas pessoas que diminuem, humilham e
envergonham a própria espécie.
6) Ontem, como
sempre, Mogi já estava de cara triste. Hoje, como quase sempre, Mogi já está
chorando. Ô cidade chorona esta.
7) Até que enfim paguei
o telefone. Duzentos e noventa e poucos mil e lá vai pedrada, ou seja, redondos
trezentos mil. Paguei com um dos cheques que o Ita deixou. Estou agora aqui no
INPS onde consegui chegar às 16 horas em ponto e pegar a ficha 733. Nem sei
ainda que número estão chamando. Só sei que aqui no balcão 07 (aliás, só aqui
no balcão 07) está abarrotado de gente e sufocante. Uma senhora que estava
sentada aqui próxima a mim, do meu lado direito mesmo encostada comigo, começou
a passar mal. Eu também não estou me sentindo bem. Mas não quero me entregar.
Não estou mais naquela onda onde me sentia melhor doente do que sã. Antes eu
queria morrer. Agora eu quero viver. Mesmo porque eu tenho a Lilinha pra criar.
E nunca encarei tão a sério isto, como agora. Eu quero vê-la sã e perfeitamente
normal. Eu quero vê-la falando, cantando e encantando todo mundo. Eu quero
vê-la entendendo tudo, aprendendo tudo e desfrutando de tudo que ela tem
direito com a beleza incomum que ela tem. Eu quero vê-la uma moça lindíssima,
inteligentíssima e felicíssima. Dando banho de beleza, de inteligência e de
felicidade em todo mundo. Distribuindo beleza e bem estar a todos que a
rodearem. Eu quero viver daqui por diante para ela e para Lorena. Quero fazer
os mais lindos vestidinhos e roupas da minha vida. Tenho enfim, graças à Deus,
fora outras coisas, estes dois motivos fortes para eu viver.
8) Estava no ponto de
ônibus quando Maria Thereza, a professora de química da Vitória e do Ita no
Justiniano chegou. Me cumprimentou alto, aí é que eu vi que era ela. E começou
a perguntar pelos filhos. Disse-lhe que Vitória estava na Bahia. E que ela e
nós todos iríamos de vez para a Bahia. Ela começou a conversar dizendo que
gostou muito de Salvador, que Salvador tem magia, mas que um casal de amigos
dela foram e não gostaram porque lá tem muitos negros. E que eles ficaram com
muito medo dos negros afros. Senti-me ofendida. Puxa, será que negro não é
gente? Expliquei-lhe, ou melhor, quis lhe explicar que era questão de
preconceito. Que todos somos criados aqui, em São Paulo, com muito preconceito.
Que aqui não existe nada mais forte do que o preconceito. E preconceito de
raças, de cor, de escolaridade, de posição social, de tudo, de tudo, de tudo. E
que lá na Bahia os negros não são marginalizados com os daqui. Que lá, os
negros são todos doutores. São todos cultos. São todos gente muito gente. E que
são dóceis, pacíficos, alegres, amigos, educados, sinceros, todas as boas
qualidades, bem melhor do que a de nós brancos eles têm. Gostaria de poder
explicar tudo pra ela. Mas o ônibus vinha e ela ia esperar amigos de carro.
Pena que ela, como outras pessoas, não conhecem nada do Brasil. Pensam que
estão com tudo, quando não estão com nada.
9) Hoje que eu estava
com tempo e que precisava conversar com Maria Thereza, defendendo a Bahia e os
baianos, o ônibus veio rápido. Paguei o telefone às 15 horas em ponto. Às 16
horas estava no INPS. Mas é uma confusão tão grande lá que, mais uma vez, de
uma série de tantas, nada resolvi. E eles ainda estão me devendo o dinheiro da
Bahia mais os três meses do novo processo. Voltei com raiva, é lógico. Antes
tivesse perdido todo esse tempo, em que estive lá, nas ruas, visitando lojas
para comprar uma sandália.
10) Aqueles
pés-de-moleques e paçocas que eu costumo comprar lá próximo ao INPS, aquelas
mesmas que eu comecei pagando duzentos cruzeiros depois quinhentos, agora já
estão a mil cruzeiros cada. Como subiram! E rápido, rápido!
11) Desci do ônibus,
atravessei a estrada e vinha no meu passo pelo começo da Av. Paulista. Ouvi
algumas buzinadas que eu não dei atenção. Outras, outras, até que olhei. Havia
um carro grande, branco, talvez Passat novo tipo o do Portuga. Duas pessoas
dentro me chamavam. Dirigindo-me a ela, ainda apontei para mim mesma fazendo
sinal de perguntar: é comigo? Chacoalharam a cabeça que sim. Quando cheguei
próxima vi que era a Valkíria e a sua mãe, a Lourdes do Bazar. Disseram-me que
iriam me dar carona até cá embaixo (seria cá em cima, acompanhando a queda do
rio). Agradeci-lhes e entrei no carro. Valkíria já tem um menininho e tomou o
ônibus para Mogi onde disse que está morando. Está mais magra e mais bonita.
Casou-se bem cedo. Nem se formou. Talvez Valkíria tenha feito só até a primeira
série colegial ou nem isso. Já está uma senhora e mamãe. Lourdes está acabada.
Nem mais parece ser ela. Ela que foi tão bonita, um mulherão, cobiçada por
todos os homens e que chegou a aproveitar alguma coisa de sua aparência. Aliás,
foi com sua aparência, com sua simpatia, sua ousadia e sua esperteza que ela
conseguiu em bem pouco tempo vários carros cada vez melhor e o seu Bazar cada
vez maior e mais estocado. Depois começou a fazer extravagâncias, beber, passar
noites em bailes, em bebedeiras, e se jogando para uns e outros, e num instante
virou um caco, declinou de vez. Ela é bem mais nova que eu, morena, deveria
ainda estar bem jovem, pois as pessoas morenas, conservam-se jovens por mais
tempo. Mas está mais acabada que eu. Arranjou um marido jovem, com dez anos
menos que ela, com quem está junto já há três anos. Mostrou-me a foto com ambos.
Ele não é tão jovem nem tão bonito quanto me disseram. E ela nem parece ser ela
na foto. Pois, se pessoalmente já está acabada, na foto está bem mais. Aparenta
já ter mais de cinquenta anos na foto. E muito maquilada, dá-me impressão ruim
de certa vulgaridade bem acentuada. Pelo carro dá-se a impressão de que ela
está bem. Mas pela fisionomia, esta não lhe acusa felicidade. Dá-se até a
impressão de que ela não arranjou no seu companheiro um marido. Mas sim uma
tremenda dor de cabeça, e mais um problema para nunca conseguir resolver.
12) Saí ontem e saí
hoje, deixando Lilinha sozinha, de mãozinhas amarradas e fechada no seu quarto.
Dá uma dó mas, que fazer? Se ela já estivesse normal é lógico que ela iria
comigo. Ela fica tão tristinha. E quando chego, ela faz aquela festa pela minha
chegada. Jussara estando em casa, não mais aconteceria isto porque, ou nós
sairemos as três juntas, ou alguma de nós duas sempre ficará com ela em casa.
13) Maurício,
Ivonete, todos, estão tendo uma ideia muito feia sobre o Jânio. Infelizmente os
poderosos inimigos de Jânio e do povo estão conseguindo fazer a cabeça de todos
os incautos, ou seja, de todas as pessoas fáceis de serem mal sugestionadas
contra eles próprios.
14) Ita talvez volte
dia 28/02. Se assim for, faltam ainda 8 dias? Já? Puxa! Só mais uma semana! E
ele estará aqui de volta, contando-nos as novidades. Será que Vitória já
voltou? Será que conseguiu emprego lá? Tomara que sim e que ela volte contente
e com bastante perspectivas de felicidade. Jussara deve estar de volta aqui em
casa amanhã. Deixa eu ir dormir que já é 1 hora de 21/02.
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