domingo, 10 de abril de 2016

XXXVI – 21/02/86 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo - Suzano

1) É uma pena que tudo seja agora assim. Os tempos são outros. Os valores são outros. Já aprendemos a conviver tão bem com a corrupção, com as maldades, com os vícios, com os crimes de toda espécie, que hoje eles nos são perfeitamente normais. Eles baniram, tomaram conta dos lugares das virtudes tão bem, e com tanta propriedade que hoje já não há lugar pra elas. Agora, quanto mais corrupção, quanto mais crimes, quanto mais desonestidade, melhor. Está tudo virado de pernas pro ar. E não será nem Jânio, nem Deus mais que irão consertar. O jeito agora é entregar, deixar tudo à mercê da sua própria sorte. As pessoas não enxergam, estão cegas, não vêem que são elas mesmas que estão invertendo e desacatando as leis e as ordens. Elas mesmas estão acendendo o estopim da bomba que as destruirá. Não tenho pessoalmente a menor confiança de que isso será mudado. Creio mesmo que este mal já é irreversível. Irremediável. A cabeça e o organismo do povo estão fracos, desgastados, sem capacidade de discernir nem lutar pelos seus direitos, pelas suas razões. Preferem se sujeitar a robôs para ajudarem na luta pelas conveniências das forças poderosas. É uma pena. É uma luta inútil, Jânio. É uma luta inútil, Deus. Estamos assistindo ao fim de mais uma era.

2) A chuva cai inveteradamente lá fora. Aqui dentro, não tenho do que me queixar e tenho um teto reforçado para cobrir minha cabeça e a dos meus. Mas nem por isso deixo de me lembrar do tempo em que não tínhamos esses tetos. Foi muito triste. Era aquela insegurança total, aquele medo, aquele pavor. Ver as nossas coisas se deteriorando sob a chuva. Sentir o perigo dos telhados voarem sobre as nossas cabeças a qualquer momento. Só que eu gostaria que esses tetos que temos fossem lá na Bahia. Seria tão bom que fosse lá no Pelourinho! Rodeado por todos os lados pela poesia gritante e imortal do Pelourinho. Mas será lá. E será melhor do que estes. Eu não posso me prender a esta casa. Eu tenho que pensar nela apenas como uma experiência. Como uma aventura de viver. Como uma das boas coisas que eu fiz para testar minha capacidade de fazer. Nada mais.

3) Não vejo a hora do telefone ser religado para que o Ita, Vitória e o João telefonem. Assim como não estou vendo a hora de a Jussara voltar para casa de vez.

4) Deitei-me com ela à pouco para assistirmos a TV e Lilinha pegou no sono, e está dormindo como um anjinho. Ela gosta tanto de ficar junto comigo, ela tem tanta carência de minha companhia perto dela que se mostra tão feliz e tão serena quando estamos juntas que até dorme. A melhor coisa que eu fiz foi parar com aqueles remédios fortes que os médicos deram para eu dar pra ela. Sem os remédios, graças a Deus, ela está quase, quase faltando uma mínima coisa, que agora tenho mais certeza do que nunca que é cuidar dos ouvidinhos dela pra ficar completamente normal. Graças à Deus, àquela senhora de Guararema e ao Gohonzon. Tenho certeza que no dia que ela sarar e ficar completamente boa, vai ser a menina mais inteligente e bonita da família.

5) Jânio decreta a volta dos atos cívicos nas escolas. Jânio saiu hoje pela segunda vez da prefeitura, pela manhã, para participar de um ato cívico.

6) Ontem Jânio foi visitar uma feira livre e, nesta feira, numa das barracas estava um rapaz trabalhando só de camiseta, quando pela lei e pelo decreto de Jânio rigoroso para que se cumpra, essa e outras leis que existem mas que de há muito não vigoram, Jânio multou o rapaz por estar sem o avental. Este, para desacatar e tirar um sarro do prefeito, saiu daquela barraca, foi para outra mais à frente onde Jânio deveria passar e aí, ainda sem camiseta perguntou ao prefeito: “E aqui eu posso”? Jânio, sem titubear, mandou que a polícia o prendesse por desrespeito às leis e desacato à autoridade. Estou sabendo agora que a polícia, após tomadas as declarações de praxe, soltou o rapaz declarando que o motivo foi só o desentendimento entre o rapaz e o prefeito. Mas a proprietária das barracas, onde o rapaz se encontrava, vai ter que pagar à prefeitura uma multa muito alta por isso. E isso, a turma acha que pode brincar com Jânio e acabam caindo do cavalo. Jânio é Jânio, meu. E com Jânio não se brinca. Com ele, só quem anda certo e gosta das coisas certas, não tem o que temer. Os outros que estavam muito mal acostumados que se cuidem.

7) Que bom! O telefone já está ligado.  Que horas são? Vai dar 16 horas no meu relógio. Já posso telefonar para o Guaió para saber da Jussara que até agora não apareceu. Deixe-me ver, deixe-me ver na lista telefônica qual o telefone de lá. Deixa ver, aqui tem vários telefones. Mas deve ser este da loja um. Alguém entrou em casa. Foi para o quarto e está cumprimentando o Gohonzon, deixa ver a voz. É Jussara que acaba de chegar. Reponho o telefone no gancho. Já não vou mais precisar telefonar para saber dela porque ela já chegou. Abro a porta do meu quarto e vou ao encontro dela no corredor vindo em minha direção. “Ia ligar neste instante para o Guaió para saber de você. O telefone ficou desligado todos estes dias e, agora neste instante que  eles religaram, eu já ia telefonar para saber de você quando você entrou”. “Eu já saí do Guaió. Ontem foi meu último dia lá. E saí numa boa com todo mundo como eu queria”.

8) Falar sobre o passado, eu ainda não sei. Toda vez que tento, entram tantas palavras e situações obtusas que nada têm com a história, e que só entram no meio da trama para atrapalhar e empobrecer tudo o que sinto e que quero dizer escrevendo. E acabo desistindo. Não gosto de escrever pieguices. E é só o que consigo escrever quando tento falar do passado. Eu queria escrever bonito e poético como minha amiga querida Haydil Linhares da Bahia. Preciso me juntar a ela o mais rápido que puder, para aprender a escrever com ela, do mesmo jeito (só que com as minhas características) que ela escreve.

                                                                                                                           Clô

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