domingo, 29 de março de 2020

25/02/1991

Orgulhosamente, estou, (ou, fiquei, após aquele último dia em que te vi, portanto, por tua causa) em um dos meus momentos férteis, de... criação. Mal acabo de conceber, gestar, e de dar à luz este poema que lhe mando, já estou sentindo os prés sintomas de uma já segunda gravidez... tua!  (E isto, tudo, sem que os nossos corpos nunca tenham se tocado. Portanto, só por inseminação espiritual! Ou mental! Ou transcendental! O que acha? Ah! E isso, para mim, tem sido, sim, talvez, tão bom! (Para mim, anormalmente, visto que, em comparação às demais mulheres, não passo de uma aberração). A fase de gestação ou de gravidez sempre foi a fase melhor do AMOR!!! Ou seja, o NIRVANA!!! O CÉU!!! O PARAÍSO!!! O ÊXTASE total e infinito!!! E tudo que possa haver (mesmo que não haja palavras humanas para descrevê-las), de igual ou mais sublime e superior. (Mesmo que, da parte do inseminador, não houvesse (ou não haja...) qualquer ou nenhum entusiasmo, eu sempre transbordei de AMOR, ao ponto de suprir e ultrapassar a outra parte, ou seja, a parte cúmplice, mas quase sempre insensível, covarde, medíocre, hipócrita, mesquinha, e mais que pobre e pauperrimamente faltante). Mas, já pensou se, algum dia, chegarmos a nos pertencer? Como será? Se, só assim, espiritualmente (pelo menos para mim), já está o máximo, nem consigo imaginar como seria... Haveria jeito de ser melhor? Ou... poderia estragar? Teríamos ainda necessidade de nos completarmos, ou nos complementar-nos mais que isso? Ou, já estamos (só assim, sem a parte corpórea) mais que completos? Este é o meu maior receio: de repente, juntarmos os nossos corpos, seria a gota d’água que falta, como também poderia ser... a gota d’água que sobra. Poderemos ficar bem mais! Como poderemos ficar... bem menos. Como posso saber? A não ser... se arriscarmos. Teria coragem? Se tiver, junte-se a mim. Se não tiver, deixa como está. Que, para mim, só assim como está, já está ótimo. E para melhor descrever-lhe essa mistura de desejo extremo e, ao mesmo tempo, medo também extremo de arriscar, torno meus estes versos:
               A mim, poeta, 
                 A ilusória miragem, satisfaz
                 Bem mais que a posse material, concreta
                 Que, desenganos, muitas vezes traz...
De Aristheu Bulhões, poeta paulista, santista, que consegue descrever e em parte mais fielmente, esta das faces mais sensíveis do meu íntimo:
            Enquanto estás longe, e és só desejo,
              Tua visão, é inspiração! É sonho!
              Vejo tudo festivo, se te vejo,
              E na ilusão, meu pensamento, ponho.

              Fique à distância...
              O teu mistério, é tudo para mim.
             Ao pensar sempre em ti, a vida iludo
             E minha inspiração... não terá fim.”
Mas por outro lado, quero e preciso rever-te, falar-te, ouvir-te... Principalmente ouvir-te, para depois... Quando já distante da tua presença, poder lembrar-te e... relembrar-te. Necessito continuar te vendo e te ouvindo porque necessito continuar recordando-te, porque necessito continuar tendo (ao menos espiritualmente) orgasmos múltiplos e simultâneos, porque necessito também (mesmo que seja só espiritualmente) continuar tendo múltiplos, múltiplos, múltiplos, simultâneas gravidezes... tuas. Certo?

                                           Clô.             25/02/1991.


Obs: o primeiro poema gestado (e citado neste texto) é "E... TU (TAMBÉM) ME NEGARÁS... TRÊS VEZES?..." dedicado ao Dr. Pedro Nascimento, advogado em Salvador.

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