sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

AVALANCHE


Hás de sentir todo o calor fremente
Hás de assustar-se então, pois sei que nunca viste
Extravasado assim tão de repente
Tanto amor louco igual a este que te assiste

Então me chegarei a ti bem de mansinho
E bem junto aos teus ouvidos dir-te-ei com carinho:
- Não te assuste, meu bem. Não tenha medo.
Vou revelar-te todo o meu segredo.

Esta avalanche que te apanhou de surpresa
É o meu amor profundo. A minha proeza.
Há muito tempo prisioneiro sufocado,
Conservei-o no meu peito assim trancado.

Preferi antes que morresse insatisfeito
Do que por ninharias ser trocado.
Hoje portanto, sôfrego, sangrado
E até de amor já ter perdido o jeito

Ele encontrou de modo inesperado
Alguém que o fez vibrar intensamente
E eis que assim retorna novamente
A ser feliz como já o fora no passado.

E o coração que antes vivia amargurado
Só sabendo chorar à toda hora
Curtido na mais forte solidão

Volta a vibrar portanto, como outrora
Volta a viver de novo esperançado
Volta a ser novamente um coração.


                                 Clotilde Sampaio, SP, 1963. 

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