quarta-feira, 12 de agosto de 2020

07 de maio de 1991 (texto 2) - ONTEM

Meu Amor, estou te telefonando, para te dar os meus parabéns, e também ganhar de você os teus parabéns pelo nosso aniversário de 28 anos de infeliz e incomum convívio conjugal comemorados no dia 06/05, segunda-feira desta semana. Dia em que eu te telefonei, mas não me lembrei nem que era dia 06, e nem que era nosso aniversário 28 anos, portanto, já mais que bodas de prata do nosso conhecimento. Só fui me lembrar anteontem no dia 07, mas fiquei me segurando para não te telefonar. Hoje, lendo algumas páginas antigas do meu diário, relembrei o quanto de amor existiu entre nós no passado, e mesmo que você me negue, eu também sei do quanto de amor ainda existe entre nós no presente (e eu não falo só de mim não. Falo de você também, que eu tenho um sexto sentido que sempre enxergou muito longe, e sei que você, embora não queira dar o braço a torcer e queira se fazer de durão, de mau, e de perverso para comigo e para com os seus filhos eu sei que você, no fundo, no fundo, você me ama, e nos ama). De mim, e de nós, eu, Ita, Jussara, não preciso nem te falar nada porque sempre, mesmo apesar de todos os pesares, provocados pela sua ignorância e estupidez com relação às coisas mais simples, naturais e mais profundas da vida, e de cuja consequência, você sempre foi a maior vítima, de você mesmo, você já está cansadíssimo de saber o quanto, quanto, quanto, eu te amo, e só te amo, com todas as forças da minha alma, e do meu coração, com verdadeira e inestinguível paixão dessas que desculpa, perdoa e compreende tudo, e até te agradece por todos os teus gestos, tantos os mais belos e dignos para comigo, como para com os mais baixos, feios, sujos e indignos que usou e continua usando contra nós e mais contra você mesmo, e principalmente os tapas que você me deu, que em vez de resultar-me em mal, só resultou em bem, porque foi após eles, que eu pude começar a viver sem precisar de você, e voltar a ser eu mesma e me curar, e crescer. Hoje, aos cinquenta e um anos, graças a você e os seus tapas, eu sou uma bem jovem mulher, dinâmica, saudável, liberta, muito feliz, e querida e respeitada por todos, e principalmente por mim mesma, coisa que não me acontecia antes daqueles tapas. Hoje, aqui na Bahia, eu escrevo, participo de palestras e eventos culturais, declamo, faço conferências, pertenço à Academia Castro Alves de Letras e já estou lançando, a pedidos dos meus muitos fãs, meu segundo livro de poemas. O primeiro esgotou-se. Venci um concurso sobre Fernando Pessoa, aqui no Gabinete Português de Leitura e, agora em junho, (estou até preparando o passaporte), viajarei por conta do Consulado Português, para Portugal, onde ficarei três meses. E vou à Espanha também. Após, irei para São Paulo, e quero que você nos faça o favor de alugar um apartamento pequenino, kitinete, bem no Centro Antigo de São Paulo, de preferência, na antiga Av. da Luz, hoje Prestes Maia, e de preferência no 3º andar, apartamento 33 ou 34? Não me lembro bem. Certo? Porque eu quero voltar a te ver, e voltar a te reencontrar e acabar os meus últimos dias, mesmo que seja para vê-lo ao menos uma só vez por semana, mas eu quero terminar os meus dias com você.  Isto, porque eu te amo, te amo, te amo, com toda a loucura, e com toda a paixão que nem os anos, nem nenhum dos obstáculos, por maior que tenham sido, conseguiram destruir. E também porque eu tenho certeza absoluta de que ninguém te ama nem te merece mais do que eu. "E olha, que para além de mim já não há nada e nunca mais me encontras nesta vida!” (Florbela Espanca). Ouviu bem? Voltarei outra vez em setembro, com a Primavera de 91, para você. Só para você. Prepare-se, e me espere com tudo, sim? Beijos, beijos, beijos. Vou te dizer um dos últimos poemas que te fiz em homenagem a nós, chama-se “O que eu faço?”. Não sei se você o recebeu pelo correio, recebeu? Então vai lá. 

Ontem, 
quando eu chorava ou sorria,
martirizando os meus dias, 
me recusando o teu amor, 
ontem, o teu orgulho exagerado 
é que me fez ficar de lado 
como objeto sem valor. 
Hoje, 
aconteceu em nossas vidas 
uma subida e uma descida, 
a sua estrela se apagou. 
Hoje, 
em nossas vidas 
houve o reverso 
o teu progresso é o meu sucesso
A própria vida te ensinou. 

Dar tempo ao tempo. 

ADN. Pelos íntimos. 

                                                  Clotilde Sampaio

                                 Salvador, 07 de maio de 1991, quarta-feira.



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